
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Pequena história rotineira e sem horizonte
Maria acordou, fez o café pra meninada e pra si, bebeu café com bolacha água e sal, tomou um banho após esquentar a água no fogão de duas bocas, se ajeitou e saiu ganhando as ruas, avenidas, praças, escolas, hospitais, ônibus, bailes, pedregulhos. Chegou exausta em casa, a venda havia sido razoável. Ela sempre voltava dizendo em sua cabeça que essa vida não compensa, ela encontraria outra forma de conseguir dinheiro, havia de encontrar! E enquanto isso seus quatro moleques cresciam meio jogados no terreiro, entre catedrais prisioneiras e cantos de pássaros ao longe; o que muitos chamariam de inferno ou desgraça é a vida e o sofrimento de Maria.
Os meninos brincavam no quintal, pulavam, dançavam, divertiam à beça. João Pedro estava com uma cicatriz enorme no braço, a mãe, como era de se esperar, no tempo de ficar doida. Os irmãos eram unidos por um laço invisível e tão frágil, como o tempo demonstraria anos mais tarde. Deixe-me apresentar os outros três: Jônatas, Josivaldo e Joaquim. São muito espertos, inteligentes, irreverentes, todos não chegaram aos dez anos; mas para a hipócrita classe média, não passam de pretinhos catarrentos pé de toddy ou algo como embriões de bandido e já é tão óbvio isso que basta conversar com um policial militar que acabou de acertar uma bala perdida em algum morro por aí. O discurso carregado de ganância de várias ONGs nas favelas também é um outro negócio lucrativo: é, menino pobre é também uma ótima oportunidade para ganhar dinheiro hoje em dia.
Maria está grávida novamente. Dessa vez não sabe quem é o pai. Acha que foi um bico que fez um dia ao substituir Tâmara no outro lado da cidade. Hoje, como outro dia qualquer, não há esperança para a mãe de quatro filhos e grávida de outro.
Ainda cedo, cumpriu toda a rotina desde fazer o café, oferecer à família a mesma bolacha, o banho; mas hoje ela não saiu ganhando as ruas, placas, calçadas. Desesperada, viu abrigo numa praça tão simpática, nunca parou antes para contemplar as flores, os coqueiros da praça, a vida brotando, a morte chegando, Seu filho sendo gerado, a morte chegando, a vida nascendo, Ela se desgastando.
Deitou na grama, braços abertos, olhos quase fechados, viu um jovem se aproximar, lhe oferecer ajuda “A ajuda que eu quero você não pode dar...” - a voz um tanto enfraquecida pelo cotidiano rotineiro; “Muito prazer, eu sou o Fabrício...”, daí surgiu uma relação um tanto complicada, mais uma entre tantas, um casal que se formou entre as possibilidades do acontecer.
Num dia de nuvens sufocantes no céu, sem lua, sem brilho, as coisas tão comuns, em meio ao deserto dos pobres, o ódio pelo papel que a máquina detratora de vidas reservou para a família, Maria cansada de tudo, das vidas e de tantas mortes sempre em curso, pulou do prédio onde limpava uma vez por semana na Rua Marechal Pimentel de Araújo, número 64, Bairro Presidente quadra 88.
Daniel Alves Lopes
Maria acordou, fez o café pra meninada e pra si, bebeu café com bolacha água e sal, tomou um banho após esquentar a água no fogão de duas bocas, se ajeitou e saiu ganhando as ruas, avenidas, praças, escolas, hospitais, ônibus, bailes, pedregulhos. Chegou exausta em casa, a venda havia sido razoável. Ela sempre voltava dizendo em sua cabeça que essa vida não compensa, ela encontraria outra forma de conseguir dinheiro, havia de encontrar! E enquanto isso seus quatro moleques cresciam meio jogados no terreiro, entre catedrais prisioneiras e cantos de pássaros ao longe; o que muitos chamariam de inferno ou desgraça é a vida e o sofrimento de Maria.
Os meninos brincavam no quintal, pulavam, dançavam, divertiam à beça. João Pedro estava com uma cicatriz enorme no braço, a mãe, como era de se esperar, no tempo de ficar doida. Os irmãos eram unidos por um laço invisível e tão frágil, como o tempo demonstraria anos mais tarde. Deixe-me apresentar os outros três: Jônatas, Josivaldo e Joaquim. São muito espertos, inteligentes, irreverentes, todos não chegaram aos dez anos; mas para a hipócrita classe média, não passam de pretinhos catarrentos pé de toddy ou algo como embriões de bandido e já é tão óbvio isso que basta conversar com um policial militar que acabou de acertar uma bala perdida em algum morro por aí. O discurso carregado de ganância de várias ONGs nas favelas também é um outro negócio lucrativo: é, menino pobre é também uma ótima oportunidade para ganhar dinheiro hoje em dia.
Maria está grávida novamente. Dessa vez não sabe quem é o pai. Acha que foi um bico que fez um dia ao substituir Tâmara no outro lado da cidade. Hoje, como outro dia qualquer, não há esperança para a mãe de quatro filhos e grávida de outro.
Ainda cedo, cumpriu toda a rotina desde fazer o café, oferecer à família a mesma bolacha, o banho; mas hoje ela não saiu ganhando as ruas, placas, calçadas. Desesperada, viu abrigo numa praça tão simpática, nunca parou antes para contemplar as flores, os coqueiros da praça, a vida brotando, a morte chegando, Seu filho sendo gerado, a morte chegando, a vida nascendo, Ela se desgastando.
Deitou na grama, braços abertos, olhos quase fechados, viu um jovem se aproximar, lhe oferecer ajuda “A ajuda que eu quero você não pode dar...” - a voz um tanto enfraquecida pelo cotidiano rotineiro; “Muito prazer, eu sou o Fabrício...”, daí surgiu uma relação um tanto complicada, mais uma entre tantas, um casal que se formou entre as possibilidades do acontecer.
Num dia de nuvens sufocantes no céu, sem lua, sem brilho, as coisas tão comuns, em meio ao deserto dos pobres, o ódio pelo papel que a máquina detratora de vidas reservou para a família, Maria cansada de tudo, das vidas e de tantas mortes sempre em curso, pulou do prédio onde limpava uma vez por semana na Rua Marechal Pimentel de Araújo, número 64, Bairro Presidente quadra 88.
Daniel Alves Lopes
domingo, 18 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
De Passagem
Relações Perigosas entre a arte e a vida
Relações Perigosas entre a Arte e a Vida
autor: Daniel Alves Lopes
Quantas associações podem ser feitas tendo em vista o livro de Chordelos de Laclos “Les Liaisons Dangereuses”( As Relações Perigosas)! Sobre o trágico afirmativo da existência, sobre as imoralidades da nobreza francesa do século XVIII - que rendeu, aliás, censuras ao romance -, diversos outros aspectos suscitam interesse ao longo da leitura, é uma grande obra. Grandes adaptações foram feitas para o cinema como a Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas) do diretor Stephen Frears; Cruel Intention (Segundas Intenções) de Roger Kumble; Valmont do diretor Milos Forman. Pretendo aqui falar de um ponto que continuo apaixonado: sobre quando e para quem a arte substitui a vida, ou se harmoniza como sendo parte dela, de modo pleno.
Laclos produziu um livro a partir de cartas: conhecemos os personagens com seus diferentes estilos, suas atitudes relatadas. Dois libertinos logo se destacam dos demais envolvidos: O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuiul.
Em uma passagem bastante rica em possibilidades interpretativas, o Visconde faz uma severa crítica à sua correspondente e aliada confidente, a Marquesa: Ele a acusa de ir às encenações dos grandes teatros como um modo de se comprazer com grandes aventuras plasticamente bem executadas, ao passo que recrimina as atitudes artísticas diretamente vividas do Visconde.
Devemos aqui ressaltar que ambos são aristocratas bem educados e que, ao deixarem de lado a moral cristã das convenções, afirmam suas existências considerando a vida como um jogo de conquistas e prazeres.
O Visconde prepara calmamente cada passo de seus premeditados “ataques”. O exemplo mais demorado é com a Presidenta de Tourvel. Ela demonstrava que trairia seu marido, já estava envolvida nos encantos do mestre da promiscuidade. Isso não bastava, era preciso que a Presidenta mantivesse até o fim sua virtude e mesmo assim não conseguisse resistir à paixão pelo Visconde de Valmont. Um pequeno descarrilamento poderia comprometer todo o plano. A arte aqui se encontra em como ele lida com a vida. Fez de sua vida uma obra de arte!
Não é aqui o caso de dizer que a Marquesa de Merteuiul substituía sua vida pela arte, tal como diz Valmont. Os seus méritos são perceptíveis em toda a trama e serão tanto maior quanto mais levarmos em conta que a reputação da mulher não podia oferecer qualquer mácula, diferentemente do homem. Dada a condição feminina da época, uma suspeita levada adiante comprometeria toda sua vida futura, fecharia o cerco das relações e daí talvez somente um convento ou a morte a deixaria em paz. A punição no caso de ser uma mulher era bem mais cruel.
Faço coro com a idéia de que a arte deve ser um momento de preparação do humano para possuir a vida. Ler uma poesia, assistir um bom filme ou ouvir uma orquestra é um encanto para a sensibilidade, desde que estejamos dispostos a nos entregar. Outro cidadão irá ao Teatro apenas para escrever uma apreciação crítica ou assistirá a mais um filme (apenas mais um em seu acervo museológico). Alguém assim age como “um mimado no jardim do saber”*, ou como um colecionador de fósseis. Uma experiência estética viva faz-nos refletir sobre os limites de uma arte institucional e o mais importante: nos ensina que a vida, com seus desvios, conquistas, sofrimentos, prazeres - é o que está em jogo.
* Nietzsche - Sobre a vantagem e a desvantagem da história para a vida.
autor: Daniel Alves Lopes
Quantas associações podem ser feitas tendo em vista o livro de Chordelos de Laclos “Les Liaisons Dangereuses”( As Relações Perigosas)! Sobre o trágico afirmativo da existência, sobre as imoralidades da nobreza francesa do século XVIII - que rendeu, aliás, censuras ao romance -, diversos outros aspectos suscitam interesse ao longo da leitura, é uma grande obra. Grandes adaptações foram feitas para o cinema como a Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas) do diretor Stephen Frears; Cruel Intention (Segundas Intenções) de Roger Kumble; Valmont do diretor Milos Forman. Pretendo aqui falar de um ponto que continuo apaixonado: sobre quando e para quem a arte substitui a vida, ou se harmoniza como sendo parte dela, de modo pleno.
Laclos produziu um livro a partir de cartas: conhecemos os personagens com seus diferentes estilos, suas atitudes relatadas. Dois libertinos logo se destacam dos demais envolvidos: O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuiul.
Em uma passagem bastante rica em possibilidades interpretativas, o Visconde faz uma severa crítica à sua correspondente e aliada confidente, a Marquesa: Ele a acusa de ir às encenações dos grandes teatros como um modo de se comprazer com grandes aventuras plasticamente bem executadas, ao passo que recrimina as atitudes artísticas diretamente vividas do Visconde.
Devemos aqui ressaltar que ambos são aristocratas bem educados e que, ao deixarem de lado a moral cristã das convenções, afirmam suas existências considerando a vida como um jogo de conquistas e prazeres.
O Visconde prepara calmamente cada passo de seus premeditados “ataques”. O exemplo mais demorado é com a Presidenta de Tourvel. Ela demonstrava que trairia seu marido, já estava envolvida nos encantos do mestre da promiscuidade. Isso não bastava, era preciso que a Presidenta mantivesse até o fim sua virtude e mesmo assim não conseguisse resistir à paixão pelo Visconde de Valmont. Um pequeno descarrilamento poderia comprometer todo o plano. A arte aqui se encontra em como ele lida com a vida. Fez de sua vida uma obra de arte!
Não é aqui o caso de dizer que a Marquesa de Merteuiul substituía sua vida pela arte, tal como diz Valmont. Os seus méritos são perceptíveis em toda a trama e serão tanto maior quanto mais levarmos em conta que a reputação da mulher não podia oferecer qualquer mácula, diferentemente do homem. Dada a condição feminina da época, uma suspeita levada adiante comprometeria toda sua vida futura, fecharia o cerco das relações e daí talvez somente um convento ou a morte a deixaria em paz. A punição no caso de ser uma mulher era bem mais cruel.
Faço coro com a idéia de que a arte deve ser um momento de preparação do humano para possuir a vida. Ler uma poesia, assistir um bom filme ou ouvir uma orquestra é um encanto para a sensibilidade, desde que estejamos dispostos a nos entregar. Outro cidadão irá ao Teatro apenas para escrever uma apreciação crítica ou assistirá a mais um filme (apenas mais um em seu acervo museológico). Alguém assim age como “um mimado no jardim do saber”*, ou como um colecionador de fósseis. Uma experiência estética viva faz-nos refletir sobre os limites de uma arte institucional e o mais importante: nos ensina que a vida, com seus desvios, conquistas, sofrimentos, prazeres - é o que está em jogo.
* Nietzsche - Sobre a vantagem e a desvantagem da história para a vida.
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