sábado, 10 de janeiro de 2009

Relações Perigosas entre a arte e a vida

Relações Perigosas entre a Arte e a Vida

autor: Daniel Alves Lopes


Quantas associações podem ser feitas tendo em vista o livro de Chordelos de Laclos “Les Liaisons Dangereuses”( As Relações Perigosas)! Sobre o trágico afirmativo da existência, sobre as imoralidades da nobreza francesa do século XVIII - que rendeu, aliás, censuras ao romance -, diversos outros aspectos suscitam interesse ao longo da leitura, é uma grande obra. Grandes adaptações foram feitas para o cinema como a Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas) do diretor Stephen Frears; Cruel Intention (Segundas Intenções) de Roger Kumble; Valmont do diretor Milos Forman. Pretendo aqui falar de um ponto que continuo apaixonado: sobre quando e para quem a arte substitui a vida, ou se harmoniza como sendo parte dela, de modo pleno.

Laclos produziu um livro a partir de cartas: conhecemos os personagens com seus diferentes estilos, suas atitudes relatadas. Dois libertinos logo se destacam dos demais envolvidos: O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuiul.

Em uma passagem bastante rica em possibilidades interpretativas, o Visconde faz uma severa crítica à sua correspondente e aliada confidente, a Marquesa: Ele a acusa de ir às encenações dos grandes teatros como um modo de se comprazer com grandes aventuras plasticamente bem executadas, ao passo que recrimina as atitudes artísticas diretamente vividas do Visconde.

Devemos aqui ressaltar que ambos são aristocratas bem educados e que, ao deixarem de lado a moral cristã das convenções, afirmam suas existências considerando a vida como um jogo de conquistas e prazeres.

O Visconde prepara calmamente cada passo de seus premeditados “ataques”. O exemplo mais demorado é com a Presidenta de Tourvel. Ela demonstrava que trairia seu marido, já estava envolvida nos encantos do mestre da promiscuidade. Isso não bastava, era preciso que a Presidenta mantivesse até o fim sua virtude e mesmo assim não conseguisse resistir à paixão pelo Visconde de Valmont. Um pequeno descarrilamento poderia comprometer todo o plano. A arte aqui se encontra em como ele lida com a vida. Fez de sua vida uma obra de arte!

Não é aqui o caso de dizer que a Marquesa de Merteuiul substituía sua vida pela arte, tal como diz Valmont. Os seus méritos são perceptíveis em toda a trama e serão tanto maior quanto mais levarmos em conta que a reputação da mulher não podia oferecer qualquer mácula, diferentemente do homem. Dada a condição feminina da época, uma suspeita levada adiante comprometeria toda sua vida futura, fecharia o cerco das relações e daí talvez somente um convento ou a morte a deixaria em paz. A punição no caso de ser uma mulher era bem mais cruel.

Faço coro com a idéia de que a arte deve ser um momento de preparação do humano para possuir a vida. Ler uma poesia, assistir um bom filme ou ouvir uma orquestra é um encanto para a sensibilidade, desde que estejamos dispostos a nos entregar. Outro cidadão irá ao Teatro apenas para escrever uma apreciação crítica ou assistirá a mais um filme (apenas mais um em seu acervo museológico). Alguém assim age como “um mimado no jardim do saber”*, ou como um colecionador de fósseis. Uma experiência estética viva faz-nos refletir sobre os limites de uma arte institucional e o mais importante: nos ensina que a vida, com seus desvios, conquistas, sofrimentos, prazeres - é o que está em jogo.


* Nietzsche - Sobre a vantagem e a desvantagem da história para a vida.

Um comentário: